Medicamentos e visão

Canetas emagrecedoras e NOIA: o que é a doença e o que sabemos sobre o risco para a visão

A NOIA é uma lesão do nervo óptico com duas formas diferentes, e perda súbita de visão sempre pede avaliação urgente. Quanto aos medicamentos, semaglutida, tirzepatida e o restante da família não estão no mesmo ponto da evidência. Veja o que já dá para afirmar e o que ainda é dúvida na hora de pensar no tratamento.

Capa — Imagem: Nikodem Nijaki / Wikimedia Commons — recorte, desfoque e sobreposição azul (CC BY-SA 3.0)

Resposta direta

A NOIA (neuropatia óptica isquêmica anterior) é uma lesão da parte anterior do nervo óptico causada por circulação insuficiente. Ela tem duas formas: a não arterítica e a arterítica, que pode ser causada pela arterite de células gigantes. A forma não arterítica, chamada em inglês de NAION, foi classificada pela agência reguladora europeia como efeito colateral muito raro da semaglutida. Essa classificação não vale para todas as canetas usadas para perder peso, nem para a forma arterítica. Para a tirzepatida e outras moléculas do grupo, os dados são mais escassos, e isso não comprova segurança nem risco igual. Perda súbita de visão, em quem usa ou não esses medicamentos, exige avaliação oftalmológica imediata. Qualquer mudança no tratamento deve ser decidida com a equipe que acompanha a pessoa.

O que é NOIA e por que existem duas formas

NOIA é a sigla de neuropatia óptica isquêmica anterior. Em termos simples, é um dano à parte anterior do nervo óptico, o nervo que liga o olho ao cérebro, causado por circulação insuficiente nessa região [9]. A doença tem duas formas, com causas e condutas diferentes.

  • Forma não arterítica (em inglês, NAION): resulta de uma insuficiência de circulação na parte anterior do nervo óptico. O mecanismo exato ainda é incerto [9]. Costuma se manifestar como perda súbita de visão, em um olho, sem dor, com falha em parte do campo visual [8].
  • Forma arterítica: pode ser causada pela arterite de células gigantes (ACG), uma inflamação das artérias [10]. Dor de cabeça nova, sensibilidade no couro cabeludo e dor ao mastigar podem acompanhar a ACG [10].

Essa distinção é central para o restante do texto. A conclusão regulatória sobre a semaglutida e os estudos discutidos adiante tratam da forma não arterítica [1][2][3], e não devem ser estendidos à forma arterítica. Por isso, daqui em diante, quando o assunto for medicamento, NOIA se refere à forma não arterítica.

Perda súbita de visão é urgência

Perda súbita de visão exige avaliação médica imediata. Não cabe tentar descobrir a forma em casa. Os sinais da ACG podem estar presentes, mas a ausência deles não dispensa a avaliação urgente. Quando a suspeita de ACG é alta, a ação médica precisa ser imediata, sem esperar o resultado da biópsia, para proteger o outro olho [10].

O que se sabe sobre tratamento

Nas duas formas, a conduta é definida pela equipe médica, caso a caso. Na forma não arterítica, uma revisão de 2024 concluiu que nenhuma intervenção tem evidência de alta qualidade de melhora da visão [8]. Uma revisão anterior já apontava que não estava estabelecida a eficácia dos tratamentos para recuperar a visão ou proteger o segundo olho [9]. Isso não é o mesmo que dizer que não há nada a fazer: é a avaliação que confirma o diagnóstico, diferencia as formas e orienta o acompanhamento. Na forma arterítica, o ponto decisivo é a rapidez da ação médica, para proteger o outro olho [10].

O apelido "caneta emagrecedora" junta remédios diferentes

No dia a dia, "caneta emagrecedora" virou quase uma categoria de medicamento, como "remédio de pressão". Para falar de risco, porém, o apelido atrapalha, porque põe no mesmo pacote produtos com moléculas, doses e indicações diferentes.

Caneta aplicadora azul de Ozempic (semaglutida) fora da embalagem, deitada sobre superfície cinza, com rótulo em chinês.
Caneta aplicadora física de Ozempic (semaglutida), comercializada na China continental; o rótulo está em chinês. É um exemplo de produto específico, não uma imagem de tirzepatida nem de todas as chamadas canetas emagrecedoras.Imagem: HualinXMN / Wikimedia Commons — versão redimensionada para web (CC BY-SA 4.0)

Ozempic e Wegovy contêm semaglutida [1]. Mounjaro contém tirzepatida, também em caneta injetável [4]. Um detalhe desmonta a ideia de que o problema seria "a caneta": o Rybelsus, que contém semaglutida e é tomado por via oral, em comprimido [7], está incluído na mesma conclusão europeia sobre NOIA [1]. O que entra na análise é a molécula, não o formato de administração.

A pergunta útil, então, não é "canetas emagrecedoras fazem mal para a vista?". É outra, mais específica: qual substância está em jogo e quão sólida é a evidência para pessoas com aquele perfil.

Semaglutida: o que já foi concluído

A semaglutida é a molécula com o quadro mais definido. Em junho de 2025, o PRAC, comitê de farmacovigilância da Agência Europeia de Medicamentos (EMA), concluiu que a NOIA não arterítica é um efeito colateral muito raro de Ozempic, Rybelsus e Wegovy [1]. "Muito raro", no vocabulário regulatório, designa uma faixa de frequência definida, e não uma impressão genérica. Os números, a diferença entre risco relativo e absoluto e mais detalhes sobre a forma não arterítica estão no nosso artigo Ozempic pode causar perda de visão? Entenda o risco de NAION e semaglutida.

Em maio de 2026, a North American Neuro-Ophthalmology Society (NANOS) e a American Academy of Ophthalmology (AAO) publicaram um consenso que ajuda a calibrar essa leitura. Segundo o documento, o risco absoluto é baixo [2].

Isso deixa uma tensão que vale manter à vista. A EMA classifica a NOIA como efeito colateral muito raro da semaglutida [1]. O consenso NANOS/AAO, por sua vez, observa que os estudos disponíveis são majoritariamente observacionais e que a causalidade não foi estabelecida [2]. As duas leituras convivem: o sinal foi levado a sério pelo regulador europeu, e a pergunta sobre a causa continua em aberto.

Tirzepatida: falta de dado não é atestado de segurança

Com a tirzepatida, o cenário é outro. Ela não foi inocentada; foi menos estudada para essa pergunta. O consenso NANOS/AAO é explícito: as demais moléculas do grupo, em especial a tirzepatida, têm menos dados, e não se deve presumir nem segurança plena nem risco equivalente ao da semaglutida [2].

Três gráficos de curvas de incidência acumulada em dois anos para distúrbios do nervo óptico, NOIA e outros distúrbios, comparando o grupo combinado semaglutida ou tirzepatida com outros antidiabéticos em pessoas com diabetes tipo 2.
Curvas do estudo observacional de Wang e colegas em pessoas com diabetes tipo 2. Semaglutida e tirzepatida estão agrupadas na comparação; as curvas não mostram o risco isolado de cada medicamento nem comprovam causa. O original, em inglês, pode ser ampliado na fonte.Imagem: Wang L, Volkow ND, Kaelber DC, Xu R / JAMA Network Open, 2025 (CC BY 4.0)

A conclusão europeia sobre NOIA trata da semaglutida [1]. Isso mostra onde a evidência se acumulou, não necessariamente onde o risco está. Da mesma forma, a página da EMA sobre o Mounjaro confirma o que ele é [4], mas não serve como prova de que não exista risco ocular.

E o estudo que costuma aparecer nessa conversa? Uma coorte publicada no JAMA Network Open em 2025 analisou retrospectivamente prontuários eletrônicos dos Estados Unidos. Os participantes eram pessoas com diabetes tipo 2 sem diagnóstico ocular prévio, acompanhadas por dois anos [3]. A comparação principal reuniu num único grupo quem usava semaglutida ou tirzepatida e o comparou com usuários pareados de outros antidiabéticos. O resultado foi uma associação com NOIA, com frequência absoluta baixa [3].

Esse resultado pede uma leitura cuidadosa. Ele se refere ao grupo combinado, e não à tirzepatida isolada, e foi obtido em pessoas com diabetes tipo 2, não em quem usa o remédio só para emagrecer. Por ser um estudo retrospectivo, mostra associação, não causa [3].

Relato não é risco: o que um caso compartilhado quer dizer

Relatos de perda visual após o início do tratamento merecem ser ouvidos com respeito. Mas eles respondem a outra pergunta. Um relato descreve o que alguém percebeu depois de começar a usar o medicamento; não diz com que frequência isso acontece, nem se o remédio foi a causa.

Para estimar frequência, é preciso saber quantas pessoas usaram o medicamento sem ter o problema, e esse denominador não aparece nos relatos. Para falar em causa, é preciso comparar com quem não usou e afastar outras explicações. O que mais circula costuma ser o caso mais impressionante, e a visibilidade de um relato não informa a incidência.

Isso não torna os relatos inúteis. No Brasil, suspeitas de eventos adversos podem ser notificadas no VigiMed, sistema da Anvisa aberto a cidadãos, profissionais de saúde e empresas [5]. Notificar ajuda a farmacovigilância a identificar sinais. Mas o que o sistema recebe são suspeitas: uma notificação não confirma diagnóstico nem prova causa [5]. Pelo mesmo motivo, uma contagem de notificações, se aparecer por aí, não equivale a uma taxa de risco.

Benefício-risco: a conta é por produto e por pessoa

Risco muito raro não significa "pode ignorar", assim como benefício comprovado não significa "serve para todo mundo". A balança tem dois pratos, e os dois mudam conforme o produto e a população.

Um exemplo do lado do benefício vem de fevereiro de 2026, quando a Anvisa aprovou novas indicações para dois produtos [6]:

  • Wegovy: redução do risco de eventos cardiovasculares maiores em adultos com doença cardiovascular estabelecida e obesidade ou sobrepeso.
  • Ozempic: tratamento de pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal crônica, junto com a terapia padrão.

São indicações de produtos específicos, para grupos específicos. Elas não se estendem automaticamente a qualquer caneta nem à tirzepatida.

O consenso NANOS/AAO lembra esse outro prato da balança ao se posicionar contra interrupções automáticas: para certos pacientes, suspender a terapia pode trazer prejuízo [2]. Pesar os dois lados, para cada pessoa, cabe à equipe que conhece a história completa.

Na prática: o que fazer se a visão mudar

Perda súbita de visão, ou piora rápida, em quem usa semaglutida, tirzepatida ou outro medicamento do grupo exige avaliação oftalmológica imediata [1][2]. Não espere para ver se melhora. Avise também a equipe que prescreveu o tratamento. Usar um desses medicamentos não significa que a causa seja ele: a avaliação também precisa diferenciar a forma não arterítica da arterítica, que tem conduta própria [10].

Biomicroscópio oftalmológico de fenda sem pessoas, recortado para mostrar apenas o equipamento.
Biomicroscópio usado em exames oftalmológicos, sem pessoa ou imagem de paciente. Foto ilustrativa do equipamento: não representa exame ou diagnóstico de NOIA. Recorte sem a tela do original.Imagem: OKJaguar / Wikimedia Commons — recortada para excluir tela com imagem clínica (CC BY-SA 4.0)

Se a NOIA não arterítica for confirmada, as referências não dizem exatamente a mesma coisa. A EMA recomenda interromper a semaglutida [1]. Já o consenso NANOS/AAO não endossa a interrupção automática e defende uma decisão compartilhada com a equipe assistente, porque suspender a terapia pode prejudicar alguns pacientes [2]. Não cabe a quem lê, nem a este texto, arbitrar essa diferença. O que ela deixa claro é que manter, ajustar ou interromper o tratamento é uma decisão a ser tomada com o médico que acompanha o caso, e não por conta própria.

Para quem usa ou pensa em usar uma dessas medicações, um bom começo é saber exatamente qual molécula está em jogo e por que ela foi indicada. Também vale combinar com a equipe o que fazer se a visão mudar.

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individual.

Perguntas frequentes

O que é NOIA e quais são as suas formas?

É um dano à parte anterior do nervo óptico causado por circulação insuficiente [9]. Na forma não arterítica, o mecanismo exato ainda é incerto, e o quadro costuma ser de perda súbita de visão em um olho, sem dor, com falha em parte do campo visual [8][9]. A forma arterítica pode ser causada pela arterite de células gigantes, que pode vir acompanhada de dor de cabeça nova, sensibilidade no couro cabeludo e dor ao mastigar [10]. O sinal regulatório ligado à semaglutida diz respeito à forma não arterítica [1].

NOIA tem tratamento?

Depende da forma, e a conduta é sempre definida pela equipe médica. Na não arterítica, nenhuma intervenção tem evidência de alta qualidade de melhora da visão, e não está estabelecida a eficácia dos tratamentos para recuperar a visão ou proteger o outro olho [8][9]. Na arterítica, a alta suspeita de ACG exige ação médica imediata, sem esperar a biópsia, para proteger o outro olho [10]. Nos dois casos, perda súbita de visão pede avaliação imediata.

Mounjaro (tirzepatida) causa NOIA?

Hoje não dá para afirmar nem descartar. A conclusão regulatória europeia sobre NOIA se refere à semaglutida [1]. O consenso NANOS/AAO considera a tirzepatida menos estudada e não presume nem segurança nem risco igual [2]. No estudo que a incluiu, ela foi analisada junto com a semaglutida, num grupo combinado [3].

Se o Rybelsus não é caneta, por que ele entra nessa história?

Porque ele contém semaglutida, tomada por via oral em comprimido [7], e está incluído na conclusão da EMA [1]. O que conta é a molécula, não o formato.

Quem usa só para emagrecer tem o mesmo risco de quem tem diabetes?

Não se sabe com segurança. Os estudos epidemiológicos citados pela EMA e a coorte do JAMA Network Open envolveram pessoas com diabetes tipo 2 [1][3]. Esses resultados não podem ser transferidos automaticamente para outros grupos.

Tive NOIA não arterítica confirmada e uso semaglutida. Devo parar?

Essa decisão deve ser tomada com a sua equipe médica. A EMA recomenda interromper a semaglutida nesses casos [1]. O consenso NANOS/AAO prefere uma decisão compartilhada, sem interrupção automática [2].

Referências

  1. European Medicines Agency (EMA), Pharmacovigilance Risk Assessment Committee (PRAC). PRAC concludes eye condition NAION is a very rare side effect of semaglutide medicines Ozempic, Rybelsus and Wegovy. Notícia publicada em 6 jun. 2025 (revisão editorial em 13 jun. 2025). Consultada em 21 out. 2026. https://www.ema.europa.eu/en/news/prac-concludes-eye-condition-naion-very-rare-side-effect-semaglutide-medicines-ozempic-rybelsus-wegovy
  2. DeParis SW, Oke I, Gaier ED, Moss HE, MacIntosh PW, Gilbert AL, Dinkin MJ, Chen JJ. Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonists and the Risk of Non-Arteritic Anterior Ischemic Optic Neuropathy: A Consensus Statement by NANOS and the American Academy of Ophthalmology. North American Neuro-Ophthalmology Society (NANOS); American Academy of Ophthalmology (AAO). Maio 2026. Consultada em 21 out. 2026. https://www.aao.org/education/clinical-statement/glucagon-like-peptide-1-receptor-agonists-risk-of-
  3. Wang L, Volkow ND, Kaelber DC, Xu R. Semaglutide or Tirzepatide and Optic Nerve and Visual Pathway Disorders in Type 2 Diabetes. JAMA Network Open. 2025;8(8):e2526327. Publicado em 11 ago. 2025. Consultada em 21 out. 2026. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12340659/
  4. European Medicines Agency (EMA). Mounjaro. European public assessment report (EPAR), visão geral. Atualizado em 8 out. 2026. Consultada em 21 out. 2026. https://www.ema.europa.eu/en/medicines/human/EPAR/mounjaro
  5. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). VigiMed. Página institucional, sem data editorial visível. Consultada em 21 out. 2026. https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/fiscalizacao-e-monitoramento/notificacoes/vigimed/
  6. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Anvisa aprova novas indicações para semaglutida e tezepelumabe. Notícia publicada em 2 fev. 2026, modificada em 9 fev. 2026. Consultada em 21 out. 2026. https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2026/anvisa-aprova-novas-indicacoes-para-semaglutida-e-tezepelumabe
  7. European Medicines Agency (EMA). Rybelsus. European public assessment report (EPAR), visão geral. Atualizado em 22 abr. 2026. Consultada em 21 out. 2026. https://www.ema.europa.eu/en/medicines/human/EPAR/rybelsus
  8. Parthasarathi, Moss. Review of evidence for treatments of acute non arteritic anterior ischemic optic neuropathy. Eye. 2024;38:2267–2278. Consultada em 23 out. 2026. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11306228/
  9. Atkins EJ, Bruce BB, Newman NJ, Biousse V. Treatment of nonarteritic anterior ischemic optic neuropathy. 2013. Consultada em 23 out. 2026. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3721361/
  10. Epstein, Ekhlassi, Haq, Shah, Hadi. Giant Cell Arteritis: A Review. EyeNet, American Academy of Ophthalmology (AAO). 2018. Consultada em 23 out. 2026. https://www.aao.org/eyenet/article/giant-cell-arteritis-a-review

Nota médica: este conteúdo é educativo e não substitui consulta, diagnóstico ou orientação individual.

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