Catarata · glaucoma · tecnologia em estudo

Lente de catarata com remédio para glaucoma: o que está em estudo

Uma lente para cirurgia de catarata que libera bimatoprosta aos poucos está em teste e, segundo a empresa, não tem aprovação da FDA. Entenda o estudo TIGRIS, o que foi divulgado sobre 12 meses e o que ainda não se sabe.

Capa — Imagem: Foto: Frank C. Müller / Wikimedia Commons (escurecida para a capa) (CC BY-SA 3.0)

Resposta direta

Está em teste uma lente para a cirurgia de catarata que também libera, aos poucos, um remédio para baixar a pressão do olho. Em um estudo inicial, a empresa que desenvolve a lente informou que 48 de 49 pacientes avaliáveis do grupo com a maior dose relatada estavam sem colírios para pressão após 12 meses [2]. O dado é animador. Mas a tecnologia ainda é experimental e, segundo a própria empresa, não tem aprovação da FDA [3].

Uma cirurgia, duas tarefas

Na cirurgia de catarata, uma lente artificial é colocada dentro do olho. A ideia em estudo é que essa lente faça mais uma coisa: carregar um medicamento e liberá-lo de forma gradual [3].

Render de lente intraocular investigacional da SpyGlass Pharma, com disco óptico central e dois volumes laterais semelhantes a alças.
Render divulgado pela SpyGlass Pharma para apresentar sua tecnologia investigacional de lente intraocular. A imagem mostra apenas a aparência externa do dispositivo, não seu funcionamento interno nem resultados clínicos.Imagem: SpyGlass Pharma (render extraído de material oficial da empresa) (© SpyGlass Pharma — reprodução com crédito, uso editorial)

Pense em quem precisa operar a catarata e, ao mesmo tempo, cuida da pressão do olho. Se a pesquisa confirmar os bons sinais, uma única cirurgia poderia colocar a lente e, junto com ela, o remédio.

Por enquanto, é uma possibilidade em pesquisa.

O que quer dizer BIM-IOL

O nome parece senha de wi-fi, mas tem lógica:

  • BIM vem de bimatoprosta, um medicamento para baixar a pressão dentro do olho [3].
  • IOL é a sigla em inglês para lente intraocular. Em português, usa-se LIO.

Juntando as partes, temos uma lente intraocular com bimatoprosta. No registro do estudo, o conjunto aparece como um sistema de implante de bimatoprosta usado junto com a lente da empresa [1].

O estudo TIGRIS: quem participou e o que se mediu

O estudo se chama TIGRIS. Ele está registrado na base pública ClinicalTrials.gov com o código NCT06120842 [1]. O patrocinador é a SpyGlass Pharma, a mesma empresa que desenvolve a lente [1].

Mapas de probabilidade da camada de fibras nervosas da retina obtidos por OCT, organizados em quatro painéis: olhos de controles saudáveis (A) e olhos com glaucoma avançado (B), moderado (C) e precoce (D).
Mapas de probabilidade da camada de fibras nervosas da retina (RNFL) obtidos por OCT, ordenados pela espessura global da RNFL peripapilar, da mais fina (canto inferior esquerdo) à mais espessa (canto superior direito): A, controles saudáveis; B, glaucoma avançado; C, glaucoma moderado; D, glaucoma precoce. Material ilustrativo reproduzido de outro estudo; não são dados do TIGRIS nem resultados de eficácia da BIM-IOL.Imagem: La Bruna S, Rai A, Mao G, Kerr J, Amin H, Zemborain ZZ, Leshno A, Tsamis E, De Moraes CG, Hood DC. The OCT RNFL Probability Map and Artifacts Resembling Glaucomatous Damage. Transl Vis Sci Technol. DOI 10.1167/tvst.11.3.18 — Fig. 2, reprodução integral. (CC BY 4.0)

É um estudo de fase 1/2, uma das etapas iniciais da pesquisa com pacientes. Ele também tem estas características [1]:

  • Randomizado: um sorteio define o grupo de cada participante.
  • Multicêntrico: acontece em mais de um centro.
  • Mascarado: parte das informações sobre quem recebeu o quê fica oculta durante o estudo, para reduzir influências.
  • Controlado: há um grupo de comparação, que usa colírio de timolol 0,5%.

O objetivo é avaliar segurança, eficácia e a resposta a diferentes doses do medicamento [1].

Quem pôde participar? Pessoas que já tinham indicação de cirurgia de catarata e que tinham glaucoma de ângulo aberto leve ou moderado, ou hipertensão ocular [1].

O que foi medido primeiro? A redução média da pressão do olho, com as avaliações principais em até 3 meses. O acompanhamento está previsto para até 36 meses [1]. As fontes usadas aqui não trazem resultados desse período completo.

O que os resultados de 12 meses mostram

Em comunicado datado de 9 de março de 2026, a SpyGlass Pharma divulgou resultados de 12 meses do estudo de fase 1/2 [2]. Segundo a empresa, no grupo que recebeu a dose de 78 microgramas, 48 de 49 pacientes avaliáveis estavam livres de todos os colírios para baixar a pressão [2]. Essa foi a maior dose relatada no comunicado.

Três detalhes ajudam a ler esse número:

  • É de um grupo só. Vale para quem recebeu 78 microgramas, não para todos os participantes.
  • São pacientes "avaliáveis". É o termo usado pela empresa para quem entrou nessa análise.
  • É um comunicado da empresa. Não é um artigo científico revisado por outros pesquisadores.

Mais um ponto: ficar sem colírio não é o mesmo que ficar sem tratamento. O remédio continua lá, liberado pela lente aos poucos [3].

O que ainda não se sabe

Há perguntas sem resposta nas fontes disponíveis:

  • Por quanto tempo o efeito dura.
  • Como fica a segurança a longo prazo e em mais pessoas.
  • Se a lente funciona melhor que o colírio. As fontes não permitem afirmar isso.
  • Qual a chance de uma pessoa específica ficar sem colírio. O resultado de 48 de 49 não é uma previsão individual.

Para responder a essas questões, são necessários estudos maiores. Segundo o mesmo comunicado, estudos de fase 3, que a empresa chama de pivotais, começaram a randomizar pacientes em janeiro de 2026 [2]. São estudos diferentes do TIGRIS.

Vale saber, também, de onde vem a informação. Das três fontes deste texto, duas são da própria empresa [2, 3]. A terceira é o registro do estudo em uma base pública [1].

O que fazer com essa informação hoje

Se você tem catarata e trata glaucoma ou pressão alta no olho, este assunto pode render uma boa conversa no consultório. Anote suas dúvidas e leve para a próxima consulta com o oftalmologista.

Duas colunas de resultados de exame de campo visual de um olho com glaucoma, com defeitos arqueados superior e inferior e escotoma paracentral superior.
Exame de campo visual de um olho com glaucoma, com defeitos arqueados superior e inferior e escotoma paracentral superior. Material ilustrativo reproduzido de outro estudo; não se refere a participante do TIGRIS nem a resultado da BIM-IOL.Imagem: Tsuchiya S, Higashide T, Sugiyama K. Visual field changes after vitrectomy with internal limiting membrane peeling for epiretinal membrane or macular hole in glaucomatous eyes. PLOS ONE, 2017. DOI 10.1371/journal.pone.0177526 — recorte da Fig. 3, painel A (apenas as duas colunas de campo visual). (CC BY 4.0)

E uma regra vale para todo mundo: não pare nem mude seus colírios por conta própria. Qualquer mudança no tratamento precisa ser decidida com orientação médica.

Perguntas frequentes

Em que fase está essa pesquisa?

O TIGRIS é um estudo de fase 1/2. Ele avalia segurança, eficácia e resposta a diferentes doses [1]. Segundo a empresa, estudos de fase 3 começaram a randomizar pacientes em janeiro de 2026 [2]. As fontes deste texto não trazem resultados dessa nova etapa.

Que remédio a lente libera?

A bimatoprosta, um medicamento para baixar a pressão dentro do olho. A proposta é que ela seja liberada aos poucos, a partir da lente [3].

Se a lente der certo, vou poder parar de usar colírio?

Hoje, ninguém pode garantir isso. O resultado de 48 de 49 vale para um grupo de dose, em um estudo inicial. Ele não diz o que vai acontecer com cada pessoa [2]. E, mesmo sem colírio, o tratamento continuaria: o remédio sairia da lente [3]. Não interrompa nem altere seus colírios sem orientação médica.

O resultado de 12 meses já foi revisado por outros cientistas?

A fonte usada aqui para esse resultado é um comunicado da empresa, não um artigo revisado por pares [2]. Por isso, ele deve ser lido com cautela.

A lente cura o glaucoma?

As fontes não falam em cura. O estudo mede a redução da pressão do olho [1]. A proposta é uma nova forma de levar o remédio ao olho [3].

A BIM-IOL já existe no Brasil?

As fontes consultadas não permitem confirmar registro na Anvisa nem oferta no Brasil. A empresa informa que a BIM-IOL não é aprovada pela FDA, órgão regulador dos Estados Unidos, e segue em desenvolvimento clínico [3].

Referências

  1. [1] ClinicalTrials.gov. A Prospective, Multicenter, Randomized, Masked, Controlled Study to Evaluate the Safety, Efficacy, and Dose-response of the Bimatoprost Implant System Used in Combination With the SpyGlass IOL Compared to Timolol Maleate Ophthalmic Solution, USP, 0.5%. NCT06120842 (TIGRIS), protocolo SGP003. Patrocinador: SpyGlass Pharma, Inc. Última atualização publicada em 22 ago. 2025. https://clinicaltrials.gov/study/NCT06120842
  2. [2] SpyGlass Pharma, Inc. SpyGlass Pharma Announces Positive Topline 12-Month Phase 1/2 Trial Results for Its Innovative BIM-IOL System. Comunicado à imprensa, 9 mar. 2026 (SEC, Exhibit 99.1). https://www.sec.gov/Archives/edgar/data/1778922/000177892226000004/exhibit991-8kpr.htm
  3. [3] SpyGlass Pharma. The SpyGlass BIM-IOL System. Página "Our Technology", sem data informada. https://www.spyglasspharma.com/our-technology/

Nota médica: este conteúdo é educativo e não substitui consulta, diagnóstico ou orientação individual.

Catarata · OlharPar

Ficou com dúvidas sobre catarata e glaucoma?

Fale com a equipe OlharPar pelo WhatsApp. A gente ajuda a organizar suas perguntas sobre catarata e glaucoma para a conversa com o oftalmologista.

Fale com a equipe pelo WhatsApp