Resposta direta
Sim, quem tem retinopatia diabética pode operar catarata, mas a retina precisa ser avaliada antes. Operar sem controlar o estado da retina pode desencadear ou piorar o edema macular diabético no pós-operatório. Por isso o planejamento inclui exame da retina, controle da glicemia e acompanhamento próximo, e em alguns casos a retina é tratada primeiro.
Sim, diabéticos com retinopatia podem ser operados de catarata — mas o planejamento cirúrgico precisa incluir avaliação completa da retina antes de qualquer decisão. A combinação das duas condições é muito comum: o diabetes acelera o desenvolvimento da catarata em até 10 a 15 anos antes da média da população. O risco está em operar o cristalino sem controlar primeiro o estado da retina, o que pode desencadear ou piorar o edema macular diabético no pós-operatório.
Por que diabéticos desenvolvem catarata mais cedo?
O cristalino é uma lente transparente que depende de um ambiente metabólico estável para manter sua transparência. No diabético, três mecanismos aceleram a opacificação:
- Acúmulo de sorbitol: Quando a glicose sanguínea está elevada cronicamente, o açúcar penetra no cristalino e é convertido em sorbitol por uma enzima chamada aldose redutase. Sorbitol não consegue sair facilmente do cristalino — ele se acumula, puxando água para dentro e causando edema osmótico. Esse inchaço desorganiza as proteínas cristalinas, opacificando a lente.
- Glicação não enzimática: Açúcar se liga irreversivelmente às proteínas do cristalino (processo chamado glicação), alterando sua estrutura química. Essas proteínas danificadas se agregam, formando opacidades.
- Resultado prático: Cataratas que normalmente aparecem aos 70-80 anos podem surgir nos 50-60 em diabéticos, especialmente se o controle glicêmico é inadequado. Alguns diabéticos jovens desenvolvem cataratas "em floco de neve" (cataratas diabéticas agudas) com progressão rápida.

A catarata em pessoas com diabetes pode aparecer mais cedo e evoluir mais rapidamente. Por isso, o planejamento cirúrgico deve considerar também a retina.
A cirurgia de catarata piora a retinopatia diabética?
Depende do estado em que a retina se encontra. A resposta simples é: sim, a cirurgia de catarata pode acelerar ou desencadear retinopatia diabética se a retina não estiver bem controlada antes. Eis por quê:
- Inflamação pós-operatória: O trauma cirúrgico da facoemulsificação dispara uma reação inflamatória intensa no segmento anterior. Mediadores inflamatórios podem "transbordar" para o segmento posterior e danificar a barreira hemato-retiniana.
- Aumento de VEGF: A inflamação pós-operatória eleva os níveis de fator de crescimento endotelial vascular (VEGF), exatamente o que piora edema macular diabético e neovascularização.
- Edema macular induzido: Pacientes com diabetes que já têm alterações retinianas podem desenvolver edema macular diabético (ou piorar o edema pré-existente) semanas após a catarata.
- O paradoxo: Isso não significa que diabéticos não devem ser operados — significa que a cirurgia precisa de planejamento cuidadoso e acompanhamento rigoroso.
Quando é seguro operar a catarata em pacientes com retinopatia?
Não existe resposta única. A segurança depende do estágio da retinopatia no momento da operação. Podemos agrupar em três cenários:
1. Retinopatia leve a moderada sem edema macular
A cirurgia é geralmente segura. O risco de desencadear edema macular é baixo se o controle glicêmico for rigoroso e o acompanhamento pós-operatório for intenso (exames a cada 2-4 semanas no primeiro mês). Referenciar pelo critério ETDRS: retinopatia não-proliferativa até estágio moderado.

2. Retinopatia proliferativa ou edema macular significativo
A prudência indica tratar a retina antes de operar a catarata. Panfotocoagulação ou injeções intravítreas anti-VEGF devem estabilizar a retinopatia (ou o edema) antes do procedimento de catarata.
3. Edema macular diabético ativo
É uma contraindicação relativa. Operar catarata com edema macular pode levar a frustração do paciente. Tratar o edema primeiro (anti-VEGF, laser focal, corticoides intravítreos) e aguardar estabilização é o caminho ideal mas nem sempre possível. Devemos levar em conta a condição atual do paciente como um todo.
O que muda no planejamento cirúrgico?
A técnica de facoemulsificação é a mesma, mas os detalhes mudam para proteger a retina:
- Hemoglobina glicada e Glicemia de jejum: O diabético deve estar em bom controle metabólico antes da cirurgia. Glicemia elevada piora inflamação pós-operatória. Coordenação com endocrinologista é essencial.
- Escolha da lente intraocular (LIO): Prefere-se lentes monofocais em pacientes com retinopatia. Lentes multifocais podem comprometer a visualização do fundo de olho durante acompanhamento, dificultando a detecção precoce de complicações retinianas.
- Cuidado com biometria: Se o paciente tiver edema macular, as medidas axiais podem estar aumentadas, levando a erro de cálculo da LIO. OCT de segmento anterior ajuda, e às vezes é melhor aguardar resolução parcial do edema.
- Medicação anti-inflamatória rigorosa: Corticoides tópicos são usados mais frequentemente e por período mais longo (4-6 semanas, às vezes mais). Alguns casos precisam de corticoides intravítreos no pós-operatório.

Qual a sequência ideal quando há catarata e retinopatia no mesmo olho?
Essa é a pergunta clínica central. A sequência depende da densidade da catarata e do grau de retinopatia:
- Avaliar a retina com OCT + retinografia: Visão é fundamental. Se a catarata é tão densa que impede visualização do fundo, deve ser removida logo (ela própria é um obstáculo ao tratamento retiniano). Se há visão suficiente, proceder à avaliação retiniana completa.
- Tratar a retina se necessário: Se houver retinopatia proliferativa, edema macular significativo ou isquemia retiniana extensa, indicar laser, anti-VEGF ou ambos. Resolver a retinopatia antes é mais seguro.
- Operar a catarata com controle adequado: Glicemia controlada, lente monofocal, anti-inflamatório, acompanhamento adequado no pós-operatório.
Exceção importante: Quando a catarata é tão densa que impossibilita a visualização da retina, ela se torna um obstáculo ao próprio tratamento. Nesse caso, a catarata é removida primeiro, permitindo avaliação e tratamento retiniano adequado.
Por que o cuidado integrado é fundamental nesses casos?
Casos combinando catarata e retinopatia não são de um oftalmologista ou outro — são de uma equipe. O cirurgião de catarata precisa conhecer retina, e o retinólogo precisa estar envolvido no planejamento cirúrgico antes, durante e depois. Na OlharPar, Dr. Henrique Leber e Dra. Nina Konichi trabalham juntos nesses casos complexos, garantindo que nenhum detalhe seja deixado de lado.
Resumo prático
- Diabéticos podem ser operados de catarata, mas precisa de avaliação retiniana antes.
- Controle glicêmico, lente monofocal e anti-inflamatório são obrigatórios.
- Se houver retinopatia proliferativa ou edema macular ativo, tratar a retina primeiro é o ideal.
- Cuidados de pós-operatório são tão importantes quanto a cirurgia em si.
Perguntas frequentes
Diabético pode operar catarata?
Sim, diabéticos podem ser operados de catarata — mas é fundamental fazer avaliação oftalmológica completa da retina antes de qualquer decisão cirúrgica. A segurança depende do estado da retinopatia e do edema macular diabético.
Qual o risco de a cirurgia de catarata piorar a retinopatia diabética?
O risco existe e precisa ser considerado, mas pode ser reduzido com planejamento adequado. A cirurgia pode desencadear ou acelerar edema macular diabético em pacientes suscetíveis. Por isso, o estado da retina deve ser avaliado e controlado antes de operar a catarata.
Que tipo de lente é mais indicada para quem tem retinopatia diabética?
Lentes monofocais são preferidas em pacientes com retinopatia diabética mal controlada. Lentes multifocais podem comprometer essa visualização.
Precisa controlar a diabetes antes de operar a catarata?
Sim. O controle glicêmico rigoroso é essencial antes da cirurgia. Isso reduz o risco de complicações inflamatórias e pós-operatórias. A coordenação com endocrinologista é importante.
Quanto tempo depois do tratamento da retina posso operar a catarata?
Idealmente 3 a 6 meses. Esse período permite que a retina se estabilize após laser, injeções anti-VEGF ou outras terapêuticas, reduzindo inflamação, entre outras complicações.
Referências
- American Academy of Ophthalmology. Preferred Practice Pattern — Diabetic Retinopathy (2024). https://www.aao.org
- Early Treatment Diabetic Retinopathy Study (ETDRS) Report No. 2. Grading Diabetic Retinopathy. Ophthalmology, 1991. Fundamental for risk stratification in diabetic patients undergoing cataract surgery.
- Sociedade Brasileira de Oftalmologia & Conselho Brasileiro de Oftalmologia. Retinopatia Diabética — Diretrizes de Manejo. https://www.sbo.com.br
Nota médica: este conteúdo é educativo e não substitui consulta, diagnóstico ou orientação individual.


