Resposta direta
Não existe uma lente intraocular melhor para todo mundo. Monofocal, monofocal plus (enhanced), EDOF e multifocal/trifocal equilibram de formas diferentes nitidez, contraste, conforto com luzes à noite e uso de óculos, e a escolha depende primeiro da saúde do seu olho e das tarefas que você mais precisa preservar. A versão tórica compensa o astigmatismo regular da córnea e não é um quinto tipo, porque pode existir em várias dessas famílias; algumas lentes podem reduzir a necessidade de óculos, mas nenhuma garante dispensá-los.
Na cirurgia de catarata, o cristalino que ficou opaco é removido e substituído por uma lente intraocular (LIO), que permanece dentro do olho. A página sobre cirurgia de catarata explica as etapas do procedimento. Este guia trata de outra parte da conversa: a escolha da lente. Ela costuma vir junto com um desejo legítimo, o de depender menos dos óculos. O que segue é um mapa das opções: o que a evidência mostra, o que ela ainda não mostra e as perguntas que ajudam a transformar preferência em decisão.
O que a lente intraocular resolve — e o que ela não resolve
A LIO substitui a parte do olho que ficou turva. Ela devolve transparência ao caminho da luz e define em que distância o olho terá seu foco principal. Nas versões tóricas, também pode compensar o astigmatismo regular da córnea.

Nenhuma lente atual devolve por completo a capacidade de focar que o cristalino tinha na juventude. Aquele cristalino mudava de forma para alternar entre longe e perto, e essa flexibilidade já vinha diminuindo desde os 40 e poucos anos. É a presbiopia, a popular "vista cansada". As lentes que ampliam o alcance de foco fazem isso por desenho óptico, estendendo ou distribuindo o foco, sem reproduzir o mecanismo natural. Por isso este texto fala em reduzir a dependência dos óculos, e não em eliminá-la.
A lente também não corrige o que acontece em outras partes do olho. A imagem final depende da córnea, da retina, do nervo óptico e do cérebro. Na retina, o papel principal é da mácula, responsável pela visão central e de detalhes. Uma lente sofisticada não compensa uma mácula doente; quando a retina já tem alguma alteração, a escolha depende ainda mais do exame de cada olho.
As quatro famílias de lente, sem simplificar demais
As categorias ajudam a organizar a conversa, mas as fronteiras não são rígidas. Dentro de cada família há modelos com desenhos e resultados diferentes, e fabricantes e estudos nem sempre usam os nomes da mesma forma.

Monofocal convencional
Tem um foco principal, normalmente planejado para longe, embora o alvo possa ser outro. Nessa distância, tende a oferecer imagem nítida e bom contraste. Em estudos comparativos, as monofocais apresentaram menos halos e ofuscamento do que as multifocais [1].
O compromisso: com foco para longe, os óculos costumam ser necessários para perto e, muitas vezes, para o intermediário. Monofocal não é sinônimo de lente "básica" ou de segunda categoria. Para muitas pessoas, pode ser justamente a opção que melhor atende à prioridade de uma imagem nítida e com bom contraste. Ela também pode produzir fenômenos luminosos, só que com menos frequência.
Monofocal plus (enhanced)
É uma monofocal com perfil óptico modificado para alongar um pouco o foco, sobretudo em direção ao intermediário. Uma revisão com meta-análise de 2025 comparou essas lentes com a monofocal convencional [4]. Encontrou, em média, ganho na visão intermediária e algum ganho para perto, com grande variação entre modelos e desenhos de estudo.
Dois cuidados. Monofocal plus não é o mesmo que EDOF, e o alcance adicional tende a ser mais modesto. Além disso, média não é promessa: para letras pequenas, muitas pessoas continuam usando óculos.
EDOF (profundidade de foco estendida)
Busca estender a profundidade de foco, sobretudo de longe em direção ao intermediário. Há modelos com princípios ópticos diferentes, e o desempenho depende do desenho: o alcance obtido, a qualidade da imagem em cada distância e o resultado para perto variam conforme o modelo e o alvo planejado. Uma revisão Cochrane de 2024, com cinco estudos, comparou EDOF e trifocais: as trifocais podem favorecer a visão de perto, mas a evidência é imprecisa [2].
Circula a ideia de que EDOF "não dá halo" ou sempre dá menos halos que uma trifocal. Os dados disponíveis não permitem essa generalização [2], e alguns desenhos de EDOF também produzem fenômenos luminosos.
Multifocal e trifocal
Distribuem a luz entre dois focos (bifocais) ou três (trifocais: longe, intermediário e perto). A revisão Cochrane de 2016 reuniu 20 ensaios randomizados comparando multifocais e monofocais [1]. As multifocais puderam reduzir o uso de óculos e melhorar a visão de perto, com visão de longe semelhante. Também tiveram mais halos e ofuscamento.
Como a luz é repartida entre os focos, a imagem em cada distância não recebe toda a luz disponível. Isso pode pesar no contraste, especialmente em pouca luz. E reduzir o uso de óculos não quer dizer zerá-lo: parte das pessoas ainda recorre a eles em algumas tarefas.
Nota de limite: os estudos dessas revisões são heterogêneos e comparam grupos. Uma redução média no uso de óculos não se traduz em uma chance individual de ficar sem eles.
Tórica não é um quinto tipo: é uma propriedade para o astigmatismo
O astigmatismo corneano acontece quando a córnea tem curvaturas diferentes em direções diferentes. Ela fica mais parecida com uma bola de futebol americano do que com uma bola de futebol. A lente tórica tem um componente que compensa essa diferença, desde que fique alinhada em um eixo específico.
Por isso, "tórica" não concorre com as famílias acima: ela se combina com elas. Existem versões tóricas de monofocais, monofocais plus, EDOF e multifocais/trifocais, com disponibilidade que varia conforme o modelo.
O resultado depende principalmente de três coisas:
- medidas precisas da curvatura e do eixo da córnea na biometria, o conjunto de exames que mede o olho antes da cirurgia;
- posicionamento correto durante a operação;
- estabilidade da lente depois dela.
Se a lente gira, o efeito diminui, e em alguns casos é preciso reposicioná-la.
Dois pontos costumam confundir:
- O astigmatismo da sua receita de óculos não é necessariamente o da córnea. Parte dele pode vir do próprio cristalino, que sai na cirurgia. O que orienta a decisão é a medida da córnea.
- Não há um número para aplicar sozinho em casa. A diretriz da ESCRS, a sociedade europeia de cirurgia de catarata e refrativa, intitulada ESCRS guideline for cataract surgery 2024 e com resumo executivo publicado em 2026, orienta considerar lente tórica a partir de 1 dioptria de astigmatismo corneano, dentro do contexto clínico [3]. É um ponto de partida para a avaliação, não uma régua para comparar com a sua receita.
Em lentes EDOF e multifocais, espera-se que o astigmatismo que sobra pese mais na qualidade da imagem, e por isso a correção costuma receber atenção especial nessas lentes. A tórica foi desenhada para o astigmatismo regular; no irregular, como o de córneas com cicatrizes ou ceratocone, ela não oferece correção completa, assunto que retomamos adiante.
Monovisão e mini-monovisão: uma estratégia entre os dois olhos
Monovisão também não é um tipo de lente: é um planejamento feito para os dois olhos juntos. Um olho, geralmente o dominante, recebe alvo para longe. O outro fica levemente míope, para favorecer o intermediário ou o perto. Na mini-monovisão, a diferença entre os olhos é menor: o ganho intermediário tende a ser mais modesto, com menos desequilíbrio entre os olhos.
A estratégia pode ser usada com monofocais, monofocais plus e EDOF. Um estudo de 2025 avaliou mini-monovisão com essas três categorias e encontrou ampla variação de resultados entre as pessoas [6]. Por isso, não dá para projetar uma porcentagem individual de sucesso ou de independência dos óculos.
Há compromissos. Nem todas as pessoas se sentem confortáveis com os olhos focando em distâncias diferentes, e algumas podem notar diferença na percepção de profundidade. A monovisão pode reduzir a estereopsia, a percepção de profundidade que vem da combinação dos dois olhos, em certos contextos: um estudo com monovisão induzida de forma óptica e por curto prazo observou esse efeito [8]. Essa situação não equivale à de uma lente implantada, então o achado ajuda a entender o compromisso, mas não prevê o que vai acontecer no seu caso. Se você já usou lentes de contato em monovisão, conte isso na consulta, porque pode ajudar no planejamento.
Comparação honesta lado a lado
| Monofocal | Monofocal plus | EDOF | Multifocal/trifocal | |
|---|---|---|---|---|
| Ideia óptica | Um foco principal | Foco principal com leve extensão | Busca estender a profundidade de foco; o desempenho depende do desenho | Luz repartida entre 2 ou 3 focos |
| Longe | Tende a ser boa no alvo escolhido | Tende a ser boa no alvo escolhido | Tende a ser boa, conforme o desenho e o alvo | Semelhante à monofocal nos estudos [1] |
| Intermediário | Limitado se o alvo for longe | Ganho médio, variável [4] | Costuma ser um dos objetivos; varia com o desenho | Tende a ser favorecido, sobretudo nas trifocais |
| Perto | Em geral com óculos, se o alvo for longe | Algum ganho médio, variável [4] | Variável conforme modelo e alvo | Tende a ser melhor que na monofocal [1]; trifocais podem favorecer o perto em relação à EDOF, com evidência imprecisa [2] |
| Halos e ofuscamento | Menos frequentes que nas multifocais [1] | Dependem do modelo | Variáveis; nem sempre menores que nas trifocais [2] | Mais frequentes que nas monofocais [1] |
| Óculos | Frequentes para perto e, muitas vezes, para o intermediário | Ainda comuns para perto | Podem ser necessários para letras pequenas | Podem ser menos necessários, sem garantia [1] |
Leia a tabela como um resumo de tendências de grupo, não como previsão para o seu olho. Modelos da mesma família podem se comportar de formas diferentes, e a resposta individual varia. Se a sua dúvida está entre os dois extremos, o artigo lente monofocal vs multifocal aprofunda essa comparação.
Luz à noite, halos, contraste e qualidade visual
Três termos aparecem muito na consulta:
- Halos: anéis ao redor de faróis e postes.
- Ofuscamento (glare): luz espalhada que "lava" a imagem perto da fonte luminosa.
- Raios (starburst): feixes que parecem sair das luzes.
A própria catarata pode causar ofuscamento, e o tipo de lente também influencia. As multifocais se associaram a mais halos e ofuscamento do que as monofocais [1], e a diferença entre EDOF e trifocais nesse quesito não está bem estabelecida [2].
O contraste merece atenção à parte. Nitidez é ler as letras pequenas da tabela num consultório bem iluminado. Contraste é distinguir o meio-fio numa rua escura, o degrau de uma escada cinza ou um rosto na penumbra. Duas pessoas com a mesma "nota" de visão podem ter experiências bem diferentes no escuro. Quando a retina ou o nervo óptico já têm alguma alteração, o contraste disponível passa a ser parte importante da avaliação.
Depois da cirurgia, existe um período de adaptação às novas imagens, chamado neuroadaptação. Um ensaio prospectivo detectou adaptação visual inicial no grupo que recebeu lente multifocal [9], mas isso não mostra que os halos sempre diminuem. A intensidade e o ritmo variam, não existe um prazo único confiável, e em algumas pessoas a adaptação não acontece como esperado [10]. Se você dirige muito à noite ou é sensível a luzes, diga isso cedo. O guia sobre lente intraocular e visão noturna detalha o tema.
Longe, intermediário e perto: pense em tarefas, não em distâncias abstratas
Se a sopa de siglas começou a pesar (LIO, EDOF, OCT…), esta é a parte mais concreta. As distâncias são aproximadas:
- Perto (cerca de 35 a 40 cm): livro, bula, celular, etiquetas.
- Intermediário (cerca de 60 a 80 cm): tela do computador, painel do carro, fogão, prateleiras do mercado.
- Longe (alguns metros em diante): direção, placas, televisão, rostos do outro lado da sala.
Alguns exemplos de tarefas e do que vale observar em cada uma:
| Tarefa | Distância | O que observar na conversa |
|---|---|---|
| Dirigir à noite | Longe | Conforto com faróis e contraste pesam tanto quanto a nitidez |
| Ler bula, rótulo, letra miúda | Perto | Por quanto tempo e com que luz; óculos de leitura pontuais seriam aceitáveis? |
| Usar o celular | Perto | Horas por dia; você já costuma aumentar a fonte? |
| Trabalhar no computador | Intermediário | Tempo de tela e distância real do monitor |
| Cozinhar, olhar o painel do carro | Intermediário | Tarefas rápidas: quanta imperfeição você tolera? |
| Costura, bordado, eletrônica, miniaturas | Perto, às vezes muito perto | Precisão e contraste; tarefas muito finas podem pedir apoio mesmo com lentes de alcance ampliado |
| Caminhar, praticar esporte, ver TV | Longe | Qualidade da imagem em diferentes condições de luz |
Um exercício simples ajuda: anote três tarefas que você não quer perder e três em que aceitaria usar óculos sem sofrimento. A lista não é receita, e em olhos diferentes pode levar a escolhas diferentes. Mas ela tende a tornar a conversa muito mais objetiva do que "quero ficar livre dos óculos".
Alvo refrativo e grau residual: por que nenhuma fórmula garante o resultado
Antes da cirurgia, a biometria mede o olho: comprimento, curvatura da córnea e outras estruturas. Fórmulas usam esses dados para calcular a potência da lente. O alvo refrativo é o grau que se pretende deixar depois da cirurgia: neutro para longe, um pouco míope para favorecer o perto ou combinações diferentes entre os olhos. Esse alvo faz parte do planejamento e deve ser conversado com você.
As fórmulas modernas costumam ter bom desempenho. Um estudo retrospectivo com 200 olhos comparou 13 fórmulas e encontrou bons resultados, mas nenhuma garantiu a refração exata em todos os casos [7]. Parte da incerteza não tem como ser eliminada, porque alguns fatores, como a posição exata que a lente vai ocupar dentro do olho, são difíceis de prever com precisão antes da cirurgia. Algumas situações costumam tornar o cálculo mais desafiador:
- olhos muito longos ou muito curtos;
- córneas já operadas, por exemplo com cirurgia refrativa a laser;
- superfície ocular instável no dia das medidas.
Por isso, pode sobrar algum grau. Com uma monofocal, um grau pequeno muitas vezes é tolerado ou pode ser corrigido com óculos. Com lentes de alcance ampliado, a expectativa é que o mesmo grau possa pesar mais na qualidade da imagem. Em alguns casos existem ajustes complementares, que dependem de nova avaliação. Saber disso antes ajuda a entender uma variação possível, em vez de interpretá-la como sinal de que algo "deu errado".
Quando há outra condição no olho: às vezes a melhor escolha é a imagem mais nítida
Às vezes, o melhor resultado visual possível passa por priorizar a qualidade da imagem e contar com óculos para algumas tarefas. Isso não é prêmio de consolação. Num olho com retina, nervo óptico ou córnea já alterados, essa pode ser uma escolha sensata, dependendo do que o exame mostrar.
Ao mesmo tempo, ter uma dessas condições não significa contraindicação automática para nenhuma família de lente. A decisão depende do tipo de doença, do estágio, da estabilidade e de como você usa a visão. Por isso os exames complementares podem fazer diferença. A diretriz da ESCRS orienta considerar a tomografia de coerência óptica (OCT) do fundo do olho quando indicada [3]. Esse exame pode mostrar alterações da mácula que podem mudar a conversa sobre a lente.
Nota de limite: para doenças da retina, glaucoma e córnea irregular, a evidência que compara famílias de lente é limitada e, em parte, conflitante. As considerações abaixo descrevem o que entra na avaliação, e não regras de proibição.
Mácula e retina
Degeneração macular relacionada à idade, membrana epirretiniana, edema macular e retinopatia diabética, entre outras, afetam a "tela" onde a imagem se forma. Uma revisão sobre lentes multifocais em pessoas com doenças da retina não encontrou evidência indicando que essas pessoas devam ser desaconselhadas a usar esse tipo de lente [11]. Isso não equivale a provar que a multifocal é boa escolha para todo olho com doença retiniana: os resultados sobre contraste foram conflitantes [11], e a decisão continua dependendo do exame de cada olho, do estágio e da estabilidade da doença e das tarefas que você mais quer preservar.
Quando há chance de a doença progredir, faz sentido perguntar também como a escolha pode se comportar ao longo dos anos, sabendo que essa resposta costuma vir com alguma incerteza. Em quem tem diabetes, o acompanhamento da retina antes e depois da cirurgia costuma ganhar peso. O artigo sobre retinopatia diabética e catarata explica essa relação.
Glaucoma
Uma revisão sistemática de 2023 sobre lentes premium em glaucoma encontrou evidência escassa [5]. Em vez de um veto automático para todo glaucoma, ela aponta para considerar o estágio da doença, o campo visual e a sensibilidade ao contraste. Um glaucoma inicial e estável é muito diferente de um glaucoma avançado. Como o glaucoma pode progredir, vale conversar também sobre como a escolha pode se comportar ao longo do tempo.
Córnea irregular
Ceratocone, cicatrizes, transplante de córnea e algumas córneas já operadas distorcem a imagem antes que ela chegue à lente. Nesses olhos, as medidas costumam ser menos previsíveis, e a tórica compensa apenas a parte regular do astigmatismo. Em alguns casos, uma óptica mais simples pode ser preferível, o que também depende de análise individual.
Outras situações que entram na conversa
Outras condições também fazem parte da avaliação:
- olho seco e outras alterações da superfície ocular, que podem interferir nas medidas e na qualidade da imagem;
- ambliopia, o "olho preguiçoso";
- inflamações oculares prévias;
- miopia alta.
Nenhuma delas, sozinha, define a lente, mas todas merecem ser mencionadas.
Marca, preço e "a lente da moda" não decidem por você
Dentro da mesma família, os modelos diferem em desenho óptico, material, opções tóricas e dados disponíveis. Uma marca conhecida não significa adequação ao seu olho, e um custo maior não significa imagem melhor para você. Também não há fórmula universal do tipo "acima de tal idade, tal lente" ou "quem lê muito, trifocal".
A lente que deu certo para a vizinha rende boa conversa no portão, mas não diz nada sobre o seu olho. Para organizar dúvidas sobre as chamadas lentes premium, o artigo lente premium na catarata: perguntas antes de escolher complementa este guia.
Nossa recomendação: comece pelo que você não quer perder
Se for para levar uma ideia deste texto, que seja esta: decida primeiro o que precisa ser preservado, ou seja, a qualidade da imagem e as tarefas que mais importam para você. Só depois pergunte quanto dos óculos dá, realisticamente, para reduzir.

Isso inverte a pergunta habitual. Em vez de "qual lente me deixa sem óculos?", a conversa começa por "o que eu não aceito perder, considerando a saúde do meu olho?". Em seguida vem "dentro disso, até onde dá para ir?". A diretriz da ESCRS também inclui a discussão das preferências e do resultado esperado como parte do cuidado [3].
Os óculos, aliás, não precisam ser os vilões desta história. Usá-los para ler uma bula miúda ou dirigir numa estrada escura pode ser uma troca razoável quando isso permite priorizar o que você mais quer preservar no resto do dia. Aqui, liberdade dos óculos é relativa: depender deles em menos momentos e escolher quando usá-los.
Perguntas úteis para levar à consulta
- Como estão minha mácula, meu nervo óptico e minha córnea? Algum exame mostrou algo que mude a escolha da lente?
- Meu astigmatismo é corneano e regular? Uma lente tórica faz sentido no meu caso?
- Qual alvo refrativo você propõe para cada olho, e por quê?
- Em quais tarefas devo esperar enxergar sem óculos, e em quais provavelmente vou precisar deles?
- O que esperar de halos, ofuscamento e contraste com essa lente, considerando o quanto eu dirijo à noite?
- Monovisão ou mini-monovisão seriam uma possibilidade para mim?
- Se sobrar grau depois da cirurgia, quais são as opções?
- Se alguma condição do meu olho progredir, como essa escolha pode se comportar ao longo dos anos?
Perguntas frequentes
Existe alguma lente que acabe de vez com os óculos?
Nenhuma lente garante isso. Algumas famílias podem reduzir o uso de óculos [1], mas a resposta varia, e parte das pessoas continua precisando deles em certas tarefas ou condições de luz. A pergunta mais útil é quais tarefas você poderá fazer sem óculos, e com que qualidade de imagem.
Tenho glaucoma, diabetes ou alteração na mácula. Lentes multifocais estão proibidas?
Não existe proibição automática. Uma revisão sobre doenças da retina não encontrou evidência indicando que essas pessoas devam ser desaconselhadas a usar multifocais, embora os resultados sobre contraste tenham sido conflitantes [11]. Em glaucoma, a evidência é escassa, e a avaliação considera estágio, campo visual e sensibilidade ao contraste [5]. Por isso, a decisão depende do exame de cada olho: em alguns, faz sentido priorizar a qualidade da imagem e contar com óculos; em outros, pode haver margem para lentes de alcance ampliado.
Tenho pouco astigmatismo na receita. Preciso de lente tórica?
Depende da medida da córnea, não só da receita, porque parte do astigmatismo pode vir do cristalino. A decisão considera a quantidade e a regularidade do astigmatismo corneano e a família de lente escolhida, dentro do contexto clínico [3].
Os dois olhos precisam receber a mesma lente?
Não necessariamente. Os alvos podem ser diferentes, como na mini-monovisão [6], e em alguns casos as lentes também. O planejamento considera os dois olhos juntos, o que é mais um motivo para não decidir por fórmula pronta.
Se eu não me adaptar, dá para trocar a lente?
Em casos selecionados, a troca pode ser considerada. Um estudo com 32 pacientes que não tiveram a neuroadaptação esperada apoia essa possibilidade em situações específicas [10]. Mas a troca é uma nova cirurgia, com riscos próprios, e não um recurso garantido para todos. Por isso vale escolher com cuidado desde o início, em vez de contar com a troca como plano B.
Que exames ajudam a escolher a lente?
A biometria mede o olho e embasa o cálculo da potência da lente [7]. As medidas da córnea mostram a quantidade, o eixo e a regularidade do astigmatismo, o que orienta a indicação de tórica [3]. A OCT do fundo do olho, quando indicada, pode revelar alterações da mácula que mudam a conversa [3]. Conforme o caso, entram também a avaliação do nervo óptico e da superfície ocular.
Referências
- de Silva SR, et al. Multifocal versus monofocal intraocular lenses after cataract extraction. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2016. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6463930/
- Tavassoli S, et al. Trifocal versus extended depth of focus (EDOF) intraocular lenses after cataract extraction. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2024; CD014891. DOI: 10.1002/14651858.CD014891.pub2. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11234495/
- Wanten JC, et al. ESCRS guideline for cataract surgery 2024: executive summary. Publicado online em 26 ago. 2026; edição de set. 2026. DOI: 10.1097/j.jcrs.0000000000002012. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC13528843/
- Fernández J, et al. Visual and patient-reported outcomes of an enhanced versus monofocal intraocular lenses in cataract surgery: a systematic review and meta-analysis. Eye. Publicado online em 1 fev. 2025. DOI: 10.1038/s41433-025-03625-4. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11933469/
- Hong ASY, et al. Premium Intraocular Lenses in Glaucoma — A Systematic Review, 2023. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10525961/
- Levy I, et al. Outcomes of mini-monovision with monofocal, enhanced monofocal and extended depth-of-focus intraocular lenses, 2025. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11885283/
- Savini G, et al. Comparison of 13 formulas for IOL power calculation with measurements from partial coherence interferometry. Publicado online em 10 jun. 2020; edição de abr. 2021. DOI: 10.1136/bjophthalmol-2020-316193. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32522789/
- Smith CE, Allison RS, Wilkinson F, Wilcox LM. Monovision: Consequences for depth perception from large disparities. Experimental Eye Research. 2019 Jun;183:62–67. Publicado online 17 set. 2018. DOI: 10.1016/j.exer.2018.09.005. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30237103/
- Zhang L, Lin D, Wang Y, Chen W, Xiao W, Xiang Y, et al. Comparison of Visual Neuroadaptations After Multifocal and Monofocal Intraocular Lens Implantation. Frontiers in Neuroscience. 2021 Jun 14;15:648863. DOI: 10.3389/fnins.2021.648863. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8236945/
- Managing dissatisfaction after multifocal intraocular lens implantation through lens exchange using monofocal or alternative multifocal IOLs. Acta Ophthalmologica. 2024. DOI: 10.1111/aos.16720. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38780148/
- Grzybowski A, Kanclerz P, Tuuminen R. Multifocal intraocular lenses and retinal diseases. Graefe’s Archive for Clinical and Experimental Ophthalmology. Publicado online 18 jan. 2020;258(4):805–813. DOI: 10.1007/s00417-020-04603-0. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7575463/
Nota médica: este conteúdo é educativo e não substitui consulta, diagnóstico ou orientação individual.


